Foto: Vinicius Becker (Diário)
Dois anos depois das enchentes que marcaram o Rio Grande do Sul em 2024, a Defesa Civil Estadual trabalha para transformar a tragédia em aprendizado. Nesta segunda-feira (4), Santa Maria recebeu 1ª edição da Capacitação em Comunicação de Risco reunindo gestores públicos, imprensa e órgãos municipais. A atividade integra uma série de encontros promovidos pelo Estado nas regiões atingidas pelos desastres climáticos. O evento teria a participação do governador Eduardo Leite, que acabou não comparecendo.
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A capacitação ocorreu na Universidade Franciscana (UFN) e reuniu diversas autoridades das 9h às 18h. A coordenadora de Comunicação Social da Defesa Civil estadual, tenente Sabrina Ribas, explicou que o governo gaúcho organiza uma semana de ações em memória aos eventos climáticos de 2024. A série de atividades, batizada de Caminho das Águas, começou por Santa Maria justamente por seguir a cronologia da tragédia.
O roteiro estadual acompanha os rastros da enchente e terá atividades de simulação e preparação em Bento Gonçalves e Porto Alegre ao longo da semana. Na abertura oficial em Santa Maria, a Defesa Civil realizou a primeira de uma série de capacitações presenciais sobre comunicação de risco para os gestores municipais, além de lançar uma cartilha de apoio. O prefeito Rodrigo Decimo e o coronel Luciano Boeira, coordenador estadual de Proteção e Defesa Civil, discursaram na abertura do evento.
A tenente destacou que o sistema de proteção exige uma atuação conjunta. Enquanto o Estado trabalha com um monitoramento mais amplo e macro, são as prefeituras que lidam de forma direta com a população local na hora da emergência.

– A comunicação mais localizada, territorializada e direcionada para orientar as comunidades é o município que faz. Então, a gente está tentando promover essa articulação e esse alinhamento para que todos consigam fazer as suas ações de gestão integrada de riscos e de proteção e defesa civil de maneira mais qualificada – resumiu a coordenadora.
Mudanças após as enchentes
Antes do evento começar na UFN, o coronel concedeu uma entrevista à Rádio CDN e relembrou que as enchentes de 2023 e 2024 expuseram dificuldades na comunicação de alertas. A partir disso, a Defesa Civil reformulou seus protocolos e passou a utilizar um sistema de classificação por cores para indicar o nível de gravidade dos eventos climáticos.
Hoje, os alertas funcionam em cinco níveis:
- verde (normalidade)
- amarelo (atenção)
- laranja (alerta)
- vermelho (evento severo)
- roxo (evento extremo)
Além disso, o Estado incorporou recursos de acessibilidade para pessoas com daltonismo, utilizando símbolos gráficos junto às cores. A mudança surgiu após um comentário recebido nas redes sociais da Defesa Civil.

– Uma pessoa nos relatou que não conseguia identificar as cores dos alertas. A partir disso, fomos buscar soluções mais inclusivas – contou Boeira.
Estado mais preparado
Durante a entrevista, o coordenador afirmou que o Rio Grande do Sul hoje possui uma estrutura mais robusta para enfrentar eventos extremos. Segundo ele, antes das enchentes históricas, a Defesa Civil Estadual contava com cerca de 40 profissionais. Atualmente, o efetivo passa de 160 pessoas entre militares e especialistas civis.
Entre os novos profissionais contratados, estão engenheiros, geólogos, hidrólogos, arquitetos e especialistas em geoprocessamento.
Outro avanço citado foi a elaboração dos planos de contingência municipais. Conforme Boeira, os 497 municípios gaúchos já enviaram seus planos atualizados à Defesa Civil Estadual.
— Hoje os municípios sabem que precisam ter abrigos preparados, rotas de fuga e estratégias organizadas para situações de emergência — afirmou.
Tecnologia e monitoramento
A Defesa Civil também ampliou os investimentos em tecnologia. Atualmente, o Estado possui 130 estações hidrometeorológicas espalhadas pelo território gaúcho, capazes de continuar funcionando mesmo durante eventos extremos.
Além disso, o primeiro radar meteorológico do Estado já está em operação em Porto Alegre. Outros três radares serão instalados nos próximos meses para ampliar a cobertura do monitoramento climático.
Santa Maria também deve receber um Centro Regional de Gestão Integrada de Riscos e Desastres, estrutura que fará parte de uma rede estadual criada após as enchentes.
– O que nós não conseguimos impedir é que os eventos aconteçam. Mas podemos estar melhor preparados quando eles chegarem — ressaltou o coordenador.
Segundo Boeira, o Estado acompanha com atenção as projeções climáticas para o segundo semestre, especialmente diante da possibilidade de novos eventos associados ao aquecimento das águas do Pacífico.
– Estamos trabalhando para que, caso isso aconteça novamente, todos estejam mais preparados — concluiu.
Coordenadoria regional de Defesa Civil
O prefeito de Tupanciretã, Gustavo Terra (Progressistas), também participou da programação e destacou os avanços regionais na gestão de crises. Ele relembrou que a Associação dos Municípios da Região Central (AMcentro) criou uma coordenadoria regional de Defesa Civil no ano passado, iniciativa que vem impulsionando encontros estratégicos em Santa Maria.
Terra mencionou os anúncios do governo gaúcho a respeito de investimentos em três novos equipamentos de monitoramento climático. Segundo o prefeito, os aparelhos devem abranger um raio de cerca de 400 quilômetros cada, garantindo a precisão necessária para que os municípios antecipem medidas e minimizem danos.
Questionado sobre a evolução das cidades no marco de dois anos desde os eventos climáticos extremos, o gestor garantiu que o cenário atual é de maior preparo técnico e humano.
– Com certeza, a partir do que aconteceu em 2023 e 2024, as prefeituras investiram bastante nas suas defesas civis, tanto em equipamentos como em qualificação de pessoas. Eu diria que hoje nós estamos bem mais maduros, bem mais preparados para o enfrentamento – avaliou.